Calor intenso mata milhares de frangos por todo país

06 de fevereiro de 2014

Quedas de energia e falhas no sistema de ventilação de aviários trazem prejuízos aos produtores e sofrimento em massa aos animais

Com a onda de calor intenso das últimas semanas, a produção de aves no Brasil tem acumulado casos massivos de mortes de frangos devido a falhas nos sistemas de ventilação automatizada durante eventuais temporais e quedas de energia. Dentre os casos mais recentes, noticiados pela imprensa nacional, esteve a morte de 45 mil frangos em Martinópolis (SP), na última sexta-feira (7) – precedida por 18 mil frangos em Marau (RS), 25 mil frangos em Maringá (PR) e outros 4 mil frangos em Sorocaba (SP), no fim de janeiro. No Vale do Taquari, os municípios somaram mais de 400 mil mortes de frangos em apenas duas semanas, nos aviários da região.

A ocorrência é comum em sistemas de confinamento durante os períodos mais quentes do ano. Apesar de estar entre os três maiores produtores de aves do planeta e liderar a exportação mundial, o Brasil ainda carece de normatização que exija um plano de contingência e resposta a emergências para quedas de energia, desastres naturais ou outras situações de risco. A regulamentação minimizaria os prejuízos de produtores e empresas, que nestes casos perdem todo investimento realizado durante o período de criação, seja em instalações, suporte técnico, alimentação etc.; tal regulamentação evitaria ainda o sofrimento de milhares de animais, como neste caso, mortos por estresse térmico (hipertermia).

Das três principais espécies consideradas como animais de produção no Brasil – aves, bovinos e suínos –, os frangos representam o grupo mais suscetível ao calor, por não possuírem um mecanismo de troca de calor tão eficaz quanto o dos mamíferos. As aves são extremamente sensíveis à temperatura ambiente elevada e, em locais fechados, dependem de um sistema eficiente de ventilação. Frangos de corte com 40 dias de vida podem sofrer de desconforto térmico quando submetidos a temperaturas ambientes acima de 28°C. A situação torna-se crítica quando a temperatura ambiente ultrapassa 32°C e é oferece ainda mais risco quando combinada à umidade.

Um sinal claro de estresse térmico pode ser observado em alterações de comportamento, as aves ofegam e aceleram a sua respiração em até dez vezes na tentativa de perder calor (chamado de jadeio). A exaustão e o consequente descontrole da temperatura corporal podem levar à perda de peso, à debilidade ou até mesmo à morte. Em média, a hipertermia se torna fatal para os frangos com o aumento de apenas 4°C da sua temperatura corporal.

“O grande problema hoje é que o custo de um gerador pode parecer alto aos olhos dos pequenos e médios produtores de frangos”, explica a supervisora de bem-estar animal da WSPA Brasil, Thamiriz Nascimento. “Porém, se comparado às perdas massivas ocasionadas pelas horas sem controle de temperatura e umidade no galpão, o preço desse equipamento viabiliza-se tanto a curto quanto médio prazo”.

A WSPA acredita que uma solução simples é a atuação sinérgica entre as empresas chamadas integradoras e seus integrados (os produtores), por meio de incentivos ou bônus temporários para os produtores que investirem em sistemas alternativos de emergência. A inclusão destes recursos como item de melhoria durante a seleção de novos integrados também é um estímulo.

O caminho de médio prazo passa por um processo normativo e ações colaborativas entre indústrias, produtores, governo e associações do setor – como a União Brasileira de Avicultura (UBABEF), a Associação Paulista de Avicultura (APA), a Associação Paranaense de Avicultura (APAVI) e a Associação Gaúcha de Avicultura (ASGAV) –, que possibilitariam minimizar e até mesmo evitar o sofrimento desnecessário de milhares de frangos por estresse térmico. Em casos como estes de falta de energia, especialmente com a intensificação da temperatura global devido às mudanças climáticas, ou ainda em situações de desastre.

“Se domesticamos e confinamos animais, independentemente do fim a que se destinam, é nosso dever prezar pelo seu bem-estar”, pondera José Rodolfo Panim Ciocca, zootecnista e gerente do Programa Nacional de Abate Humanitário (STEPS) da WSPA, que atua em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) na capacitação de inspetores e profissionais do setor agropecuário sobre bem-estar animal.

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