Por que javalis são só desculpa para liberar a caça

Publicado em 05 de junho de 2019 por

João Almeida

Animal já tem abate permitido no Brasil, mas vem sendo usado como justificativa para obtenção de porte de arma e liberação da caça de outras espécies

Existe uma ameaça da volta à caça no Brasil. A atividade é proibida desde 1967, mas o tema voltou à tona no atual governo e agora ameaça milhares de animais no país. E no meio dessa polêmica, estão eles: os javalis.

De todas as espécies, talvez essa seja a mais usada como justificativa para a liberação da caça – ainda que já seja permitido caçá-los desde 2013.

O argumento está na necessidade de controlar a espécie, que se alastrou desordenadamente no sul do país e tem causado prejuízos à agricultura e ao meio ambiente. De fato, o javali é um animal bastante invasivo e que causa impacto principalmente aos pequenos agricultores, às áreas de nascentes e outras áreas de preservação permanente. Mas, a questão não é tão simples.

Javalis são nossa responsabilidade

O primeiro ponto é que o alastramento desordenado dos javalis não foi um processo natural. Foi causado, na verdade, pelas pessoas – e aqui precisamos lembrar como a espécie, que não é nativa, surgiu no Brasil.

O animal se inseriu em nosso território via Rio Grande do Sul, por volta da década de 1990, para servir como carne “exótica”. Sua comercialização não vingou e, sem medidas preventivas de controle e fiscalização eficientes, os javalis que fugiam ou eram soltos por antigos criadores encontravam um ambiente favorável para reprodução, afinal, a espécie não tem predadores naturais no Brasil.

Fomos nós que cometemos o primeiro erro. E depois o segundo, o terceiro, o quarto... Ao longo dos anos, a população de javalis cresceu massivamente, sem receber manejo ético e adequado. Foram décadas de negligência. E agora que a situação saiu do controle, a nossa solução é submeter todos esses animais e espécies nativas a uma morte brutal?

Se há necessidade de manejo, a prioridade deve ser para práticas não letais, que sigam princípios éticos e humanitários, ou, em último caso, a eutanásia humanizada feita por profissionais capacitados. É um trabalho técnico que não deve ser conduzido pela população, mas sim por meio de políticas públicas específicas, visto a escala e importância que o tema ganhou no país.

Ameaça a animais nativos e cães

Qualquer tipo de caça é cruel (leia nosso posicionamento).

A prática da caça gera sofrimento, seja instantâneo ou prolongado – esse último caso acontece quando o animal é ferido e não vai a óbito imediatamente, podendo agonizar por dias antes da sua morte. A caça também ameaça espécies nativas. Queixadas e catetos (porcos do mato), por exemplo, são protegidos por lei e não devem ser caçados no Brasil, mas podem facilmente ser confundidos com javalis e mortos por um dos mais de 70.000 caçadores registrados até o momento no Brasil. E isso sem contar os ilegais!

Cateto, javali e queixada (Fotos: Dharma For One, Black Tigers Dream, JVL / Creative Commons)

Para piorar, agora está sendo debatida a liberação do uso de cães nas caçadas no país – a Instrução Normativa MMA/IBAMA nº 12 entrou em vigor no fim de março. A prática provoca mutilações e outros machucados nos cachorros, nos animais exóticos invasores (como o javali) e também nos silvestres, além de propiciar a transmissão de doenças entre os animais e também para pessoas.

Mas o que mais me inquieta é como os javalis estão sendo usados oportunisticamente para justificar a liberação da caça em geral no Brasil. Ou seja, de outras espécies.

Desculpa para matar milhares de animais

Como biólogo, me preocupa a reprodução de argumentos vagos, como “controle de espécies invasoras”. O perigo é que esse discurso generaliza o problema e transforma a caça numa solução emergencial. É assustador ouvir alguns discursos políticos ou ler comentários na internet, como se liberar a prática fosse “necessário” para o bem do nosso país, validando a morte de milhares de outros animais.

O Brasil tem dezenas de espécies invasoras. De mamíferos a aves, anfíbios e peixes. Mas o impacto da superpopulação de gatos em Fernando de Noronha, por exemplo, não pode ser tratado da mesma forma genérica que o excesso de maritacas no interior de São Paulo. A hibridização e competição dos saguis sobre as espécies de primatas nativas não é igual aos javalis nas plantações do Rio Grande do Sul. São problemas diferentes e que pedem respostas diferentes.

Mico-estrela é uma das espécies invasoras no Brasil (Foto: Susanne Nilsson / Creative Commons)

Nosso país tem capacidade técnica e científica para lidar com as mais diversas espécies, inclusive por meios muito mais éticos – que vão da castração ao controle biológico. Sugerir a caça como solução para todas as espécies invasoras é preguiçoso e, na maioria dos casos, simplesmente cruel.

Uma prática cruel e ineficiente

Basta ver os próprios javalis: a caça desses animais já é liberada para a população desde 2013 e, de lá para cá, os dados disponíveis mostram que a população da espécie aumentou vertiginosamente.

O controle não é a motivação real por trás da liberação da caça. E menos ainda da caça esportiva, um luxo insustentável defendido por um pequeno segmento da sociedade brasileira. Forçar argumentos para a liberação da caça confronta a própria opinião da população: 93% dos brasileiros são contra a liberação da caça.

A única coisa que todos os casos de desequilíbrio ecológico pelo Brasil têm em comum é que foram causados por nós. Pelas pessoas. E são, portanto, responsabilidade nossa. Encontrar soluções menos brutais é um esforço que devemos aos animais, especialmente se eles estão pagando com a vida por erros nossos.

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