Coalizões frágeis, interesses fortes: o que 2025 revelou sobre política e causa animal
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Os desafios inerentes ao chamado governo de coalizão tornaram-se particularmente evidentes ao longo de 2025.
O ano teve início sem a aprovação do orçamento federal, em um contexto marcado por tensão permanente entre os Poderes Executivo e Legislativo. Ao longo dos meses, o cenário político foi atravessado por sucessivas crises, da chamada “crise do Pix” à mais recente “crise do Messias”, que expuseram fragilidades institucionais e aprofundaram a instabilidade na condução das agendas governamentais.
Nesse ambiente, o governo federal enfrentou reveses significativos, como a instalação da CPI do INSS e a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) com a imposição da execução das emendas parlamentares antes das eleições de 2026. Esses movimentos reforçaram o desequilíbrio na relação entre os Poderes e limitaram a capacidade de coordenação do Executivo em um ano já sensível do ponto de vista político.
Para quem atua no campo das políticas públicas, um Executivo enfraquecido representa um desafio concreto no cotidiano da incidência política. Como último ano plenamente operativo antes do ciclo eleitoral de 2026, 2025 concentrou a disputa por agendas estruturantes, uma vez que o calendário do próximo ano tende a restringir significativamente o avanço de debates de maior fôlego. Ainda assim, foi possível observar uma atuação expressiva do terceiro setor, tanto dentro quanto fora do Congresso Nacional, ocupando espaços de diálogo e tensionamento político.
Nesse contexto, destaca-se o lançamento inédito da Agenda Legislativa Animal, construída com o apoio de mais de dez organizações da sociedade civil e duas Frentes Parlamentares. A iniciativa teve como objetivo central pautar o Poder Legislativo com propostas formuladas pelas organizações que atuam na defesa dos animais e que dependem de tramitação e aprovação no Congresso Nacional. Mais do que um instrumento técnico, a Agenda representou um chamado à articulação coletiva, convocando defensoras e defensores da causa animal a atuarem de forma coordenada em nível federal.
Em sentido oposto, avançaram ao longo do ano as agendas setoriais da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que sustentaram projetos legislativos contrários a diversas frentes de atuação do terceiro setor. Um exemplo emblemático foi o Licenciamento Ambiental, amplamente conhecido como PL da Devastação, aprovado com ampla margem de votos nas duas Casas do Congresso, mesmo contrariando a orientação de parte do governo federal e contando com o apoio público das duas confederações.
Essa tensão permanente dentro do próprio Poder Executivo, marcada pela disputa entre setores com visões antagônicas sobre o desenvolvimento e o uso dos recursos naturais, foi uma das principais características de 2025. O cenário reverberou diretamente nas articulações com o Congresso Nacional, especialmente em um contexto de enfraquecimento político da Presidência da Câmara dos Deputados, então sob Hugo Motta, e de fortalecimento do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
O agronegócio, consolidado como a maior força política do Congresso Nacional, reafirmou seu papel central como articulador das principais decisões legislativas. Seu peso político impôs ao governo federal a necessidade, indiscutível, de negociar praticamente todas as pautas relevantes com esse setor. Para a causa animal, esse arranjo representa um obstáculo estrutural, uma vez que a transformação do sistema que explora animais pressupõe uma revisão profunda das formas de uso dos recursos naturais, debate que o agronegócio, historicamente, se recusa a enfrentar.
Ainda assim, organizações da sociedade civil ocuparam o espaço legislativo com suas pautas, posicionamentos e propostas, demarcando com clareza seus campos de atuação e resistência. Para aqueles que acreditam na viabilidade do governo de coalizão, 2025 funcionou como um verdadeiro teste de seus limites. Os tensionamentos crescentes entre extrema direita e centro-esquerda no cotidiano da política nacional tornaram-se cada vez mais difíceis de serem mediadas pelos instrumentos tradicionais da política institucional.
O ano se encerra com desafios evidentes no horizonte. No entanto, apesar das adversidades, a causa animal consolidou um espaço no debate público e institucional brasileiro. Esse espaço foi conquistado com articulação, incidência e mobilização coletiva e, uma vez ocupado, não retrocederá.