Desmatamento e extinção: como o sistema alimentar global ameaça o zogue-zogue-do-mato-grosso
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Por Julia Trevisan
O zogue-zogue-do-mato-grosso perdeu 42% do seu habitat. Por trás dessa devastação está um sistema que conecta soja, ração animal e fazendas industriais ao Arco do Desmatamento. Entenda a cadeia e o que a Proteção Animal Mundial está fazendo para mudar isso.
Desmatamento e extinção de animais: o que isso significa na prática?
Desmatamento costuma ser lembrado como a derrubada de florestas e logo temos a imagem dos troncos empilhados para comércio ilegal. Mas, na prática, ele representa algo maior: a desestruturação de ecossistemas inteiros, incluindo o desaparecimento de espécies.
O zogue-zogue-do-mato-grosso é um exemplo direto dessa realidade. A redução contínua da floresta transforma seu habitat em fragmentos isolados, incapazes de sustentar populações saudáveis por muito tempo. Esse processo leva ao confinamento da espécie em pequenas áreas, aumentando sua vulnerabilidade e acelerando o risco de extinção. Esse isolamento reduz a troca genética entre populações, um fator crítico na extinção de espécies.
Existe uma característica que o torna especialmente vulnerável: o zogue-zogue é endêmico do Mato Grosso, ou seja, existe apenas em uma região muito restrita do planeta. Sua ocorrência está limitada entre as margens de três rios e diferentemente de espécies com ampla distribuição, o zogue-zogue pode desaparecer rapidamente se esse território for comprometido, o que o torna um dos exemplos mais sensíveis da relação direta entre perda de habitat e risco de extinção.
Em 2024, segundo o relatório anual do MapBiomas, o estado do Mato Grosso desmatou 250 hectares por dia, totalizando 92.554 hectares no ano. Está entre os 6 estados que mais concentraram área desmatada nos últimos 6 anos.
Essas transformações rápidas na paisagem amazônica devido ao avanço da fronteira agrícola, da pecuária e de grandes projetos de infraestrutura, são hoje as principais responsáveis pela queda populacional e pela redução da diversidade de primatas. Esse conjunto de pressões sobre os primatas e outros animais é o que chamamos genericamente de desmatamento.
Arco do Desmatamento: o avanço de um sistema de produção alimentar
O norte do Mato Grosso está inserido no chamado Arco do Desmatamento, uma das regiões mais pressionadas da Amazônia. Ali, a fronteira agrícola avança de forma acelerada, impulsionada principalmente pela produção de soja, milho e pela pecuária.
O Brasil ocupa posição central na produção global de carne. Para sustentar esse volume, é necessária uma grande quantidade de ração, baseada principalmente em soja. Parte significativa dessa produção ocorre em áreas que antes eram vegetações nativas e habitat de milhares de animais.
Essa soja é uma commodity e o Brasil exporta em grande escala, alimentando sistemas industriais de criação de animais, como frangos e suínos, mantidos em alta densidade e baixíssimos níveis de bem-estar.
Esse modelo de desenvolvimento expandiu infraestrutura e atividade econômica, mas também trouxe consequências ambientais significativas: aumento do desmatamento, perda de biodiversidade, degradação de recursos hídricos e intensificação de conflitos sociais.
A abertura de estradas e a construção de hidrelétricas ampliam esse impacto ao fragmentar habitats e facilitar o acesso a áreas antes preservadas.
A conversão de florestas em áreas agrícolas reduz diretamente o território do zogue-zogue. Hoje, estima-se que 42% do habitat da espécie já foi perdido. Se o cenário continuar, esse número pode chegar a 86% nas próximas décadas. Por conta disso, está classificada como Criticamente Ameaçada de extinção pela IUCN.
As alternativas já existem
Diante dos impactos crescentes da agropecuária industrial, do desmatamento à perda de biodiversidade, passando pelo sofrimento animal e pelas desigualdades sociais, fica cada vez mais evidente que o modelo atual de produção de alimentos não se sustenta no longo prazo.
Ele concentra riqueza, pressiona ecossistemas e prioriza commodities voltadas à exportação, enquanto a produção de alimentos para as pessoas segue, em grande parte, nas mãos da agricultura familiar.
A alternativa a esse modelo já existe e ganha força em diferentes regiões do Brasil: a agroecologia, aliada à agricultura familiar e aos sistemas agroflorestais. Essa abordagem propõe produzir alimentos em equilíbrio com a natureza, respeitando os ciclos ecológicos, promovendo o bem-estar animal e valorizando o conhecimento local. Ao contrário da lógica industrial, ela prioriza a diversidade produtiva, a conservação dos recursos naturais e a geração de renda de forma mais justa.
Esse caminho também passa pelo fortalecimento de uma transição justa, um processo que busca transformar o sistema alimentar sem deixar comunidades para trás, criando novas oportunidades econômicas baseadas na sociobiodiversidade.
Mais do que uma alternativa, esse modelo representa uma mudança de direção: sair de um sistema que explora até o limite para outro que regenera, distribui e sustenta. Investir em agroecologia, valorizar quem realmente produz alimento e promover dietas mais sustentáveis são passos fundamentais para construir um futuro em que produzir comida não signifique destruir o planeta.
O que está sendo feito para evitar a extinção
O projeto Reconexão Zogue-Zogue foi desenvolvido como uma resposta direta a esse cenário, apostando na restauração de corredores ecológicos para reconectar fragmentos de floresta e permitir que populações isoladas voltem a interagir.
Para isso, implementaremos um modelo integrado que combina restauração florestal, sistemas agroflorestais comunitários, monitoramento científico da espécie e desenvolvimento de turismo de observação de primatas de baixo impacto.
A iniciativa vai além da restauração ambiental ao propor soluções que integrem conservação e geração de renda. A proposta é demonstrar, na prática, que é possível alinhar benefícios para a fauna, para as comunidades locais e para o clima, criando um modelo que possa ser adaptado e replicado em outras regiões.
O que você pode fazer agora
Combater o desmatamento e a extinção de animais também passa por informação e escolha.
Você pode:
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Cada ação ajuda a dar visibilidade a espécies ameaçadas e a pressionar por mudanças estruturais.
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Fontes: IUCN Red List (Plecturocebus grovesi), Re:wild — Primates in Peril 2022-2023, ICMBio — Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, Portal Amazônia, ((o))eco, FAPESP Na Mídia, Sumaúma.
Foto: Noelly Castro / Proteção Animal Mundial
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