Recursos públicos deixam de financiar saúde e meio ambiente para sustentar um modelo ligado à crueldade animal e ao desmatamento.
Declarar o imposto de renda é a rotina anual de milhões de brasileiros. Isso porque, todos os anos, contribuímos de acordo com o que ganhamos. Mas, para grandes empresas como a JBS, essa lógica não se aplica.
Ao receberem benefícios fiscais, essas empresas deixam de contribuir com uma parcela significativa de impostos, criando um desequilíbrio evidente entre o tamanho dos seus lucros e o quanto efetivamente devolvem à sociedade. No último ano, a JBS ficou em terceiro lugar entre as empresas que mais receberam esse tipo de benefício.
Enquanto a maioria de nós sua para pagar seus impostos, a JBS acumulou mais de 5 bilhões de reais em benefícios fiscais e isenções. Na prática, isso significa que recursos públicos deixam de ser investidos em saúde, educação e na mitigação dos impactos gerados pela própria empresa, enquanto ajudam a sustentar seus resultados financeiros.
Ainda que exista algum retorno para o país, o volume de renúncia revela um claro desequilíbrio, já que o que o Estado abre mão de arrecadar está longe de ser compensado social ou ambientalmente. Segundo seu próprio relatório de 2024, esse montante é sete vezes maior do que o maior investimento já feito pela empresa em iniciativas de bem-estar animal, por exemplo.
Semanas atrás, mostramos que a maior processadora de carne do mundo está, de fato, arrasando: arrasando com os animais, com o planeta e com o nosso futuro. Enquanto seus acionistas celebram lucros bilionários, o que vemos por trás deles é sofrimento animal, desmatamento e compromissos climáticos abandonados. Tudo isso sustentado por benefícios desmedidos, que ajudam a inflar esses lucros — concentrados nas mãos de poucos — enquanto os impactos recaem sobre toda a sociedade.
Mudança de sede e menos impostos
Em 2025, a JBS transferiu sua sede jurídica para a Holanda — um país onde não possui operação produtiva relevante.
Estudos mostram que a Holanda é uma peça global importante nos fluxos de elisão fiscal corporativa — estratégias usadas para reduzir ou adiar o pagamento de impostos de forma legal, usando brechas na legislação. O país é conhecido como sendo uma jurisdição de passagem, como se fosse um “país-canal”, ou intermediário, permitindo que o dinheiro passe por lá antes de seguir para paraísos fiscais.
Em termos simples: os paraísos fiscais são onde o dinheiro se esconde — já países como a Holanda, é por onde ele escapa. As pesquisas destacam ainda que esse escape afeta a perda de receitas em outros países, incluindo países mais pobres.
Essa mudança facilita o acesso da JBS a mercados financeiros internacionais e amplia suas estratégias tributárias o que pode resultar, na prática, em uma diminuição ainda maior impostos pagos.
Um outro estudo encomendado pela Proteção Animal Mundial e conduzido pelo SOMO, ainda antes da transferência da sede, mostrou que a JBS deixou de pagar centenas de milhões de dólares em impostos corporativos em diversos países.
Entre 2019 e 2022, estima-se que a empresa tenha evitado pagar entre US$ 221 milhões e US$ 442 milhões em tributos nos Estados Unidos, Canadá, México e outras jurisdições. A pesquisa aponta o uso de uma rede de subsidiárias em países de baixa tributação — muitas vezes sem operação relevante. Embora legais, essas práticas levantam sérios questionamentos éticos, já que os impactos da empresa não ficam nesses territórios, mas nos países onde ela de fato opera, como o Brasil.
É aqui que florestas continuam sendo desmatadas, animais são confinados em sistemas intensivos e ecossistemas inteiros são contaminados. É também aqui que recursos públicos poderiam ser usados para mitigar esses danos.
Além disso, a atuação da empresa está associada a impactos sociais negativos nas regiões onde se instala, incluindo pressão sobre indicadores locais e casos já registrados de trabalho análogo à escravidão. Tudo isso acontece onde? No Brasil.
Investimento baixo em rastreabilidade
O crescimento dos lucros da empresa não veio acompanhado de maior controle sobre sua cadeia de fornecedores. O sistema segue vulnerável à entrada de gado de origem ilegal, especialmente por meio de fornecedores indiretos.
O investimento em rastreabilidade ainda é baixo. No último ano, cerca de 35 milhões de reais foram destinados a iniciativas no Pará — um valor cerca de 100 vezes menor do que o montante que a empresa deixou de recolher em impostos no mesmo período. Até agora, esses esforços são insuficientes para resolver problemas estruturais da cadeia.
Investir na agroecologia é a solução
Enquanto isso, a agricultura familiar e os sistemas agroecológicos seguem recebendo menos investimentos. Avançam lentamente diante de um modelo que concentra recursos e perpetua impactos ambientais e sociais.
Na Proteção Animal Mundial, defendemos que recursos públicos devem fortalecer quem constrói um futuro justo e sustentável — e que políticas tributárias precisam refletir esse compromisso.
A resposta esperada do poder público diante da pecuária industrial não é a concessão de benefícios desmedidos, mas o desinvestimento progressivo nesse modelo.
Chega de pecuária industrial.