Entenda por que tamanduás-bandeira aparecem nas estradas brasileiras e como queimadas, desmatamento e perda de habitat ameaçam essa espécie vulnerável. Conheça o trabalho de reabilitação.
Solitário, de andar lento e focinho alongado, o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é um dos animais mais emblemáticos da fauna brasileira. Com sua cauda exuberante que se dobra sobre o corpo como um cobertor protetor, ele percorre grandes extensões de cerrado e pantanal em busca de formigas e cupins, podendo consumir até 30 mil insetos por dia.
Das florestas para as estradas: um deslocamento forçado
Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum avistar tamanduás-bandeira em rodovias, áreas urbanas e até em meio ao caos das chamas. Essas aparições não são coincidência, são consequência direta da perda e fragmentação de habitats, dos incêndios florestais e da expansão desenfreada da malha viária sobre áreas naturais.
Nos últimos 35 anos, mais da metade do Cerrado brasileiro foi convertida em terras para atividade agropecuária. No Pantanal, os números são igualmente alarmantes: em 2020, quase 30% da vegetação foi destruída pelo fogo, matando cerca de 17 milhões de animais. E em 2024, o cenário se repetiu com força devastadora.
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Ao perderem seus territórios, fontes de alimento e abrigo, esses animais são forçados a se deslocar para ambientes que não foram feitos para eles — onde os riscos se multiplicam: atropelamentos, ataques de cães, estresse, desorientação e, em situações extremas, a perda de filhotes.
475 milhões de vidas por ano: a tragédia silenciosa das rodovias
O Brasil possui a quarta maior malha rodoviária do mundo: 1,7 milhões de quilômetros de estradas cortando biomas inteiros. E com isso, vem uma estatística devastadora: 475 milhões de animais silvestres morrem atropelados por ano nas estradas brasileiras. São 15 mortes por segundo. 1,3 milhão por dia. Mais que o dobro da população humana do país.
Entre os mamíferos de grande porte, o tamanduá-bandeira está entre os mais vulneráveis. Na BR-262, que corta o Mato Grosso do Sul e é recordista em colisões com fauna, o tamanduá-bandeira é a terceira espécie mais atingida. Para expor e aprofundar esse e outros impactos do modelo de desenvolvimento que atravessa nossos ecossistemas, produzimos o documentário “BR-163 – Progresso para quem?”, que revela como a expansão da rodovia BR-163 ameaça a vida de animais silvestres.
Por que tamanduás são tão vulneráveis?
- Visão limitada: Olhos pequenos que não refletem luz dos faróis
- Audição deficiente: Dificuldade em detectar veículos se aproximando
- Movimentos lentos: Não conseguem atravessar rodovias rapidamente
- Pelagem escura: Quase invisíveis nas estradas à noite
- Hábitos noturnos: Maior atividade justamente no horário de maior risco
E há um agravante: muitos desses atropelamentos acontecem porque os animais estão fugindo do fogo.
Órfãos do fogo: quando as chamas roubam o futuro

Tamanduás-bandeira são animais com cuidado parental muito próximo e durante os primeiros meses de vida, a mãe carrega o filhote no dorso. Em situações de colisão nas estradas, é comum que o filhote seja projetado para frente e sobreviva, enquanto as mães muitas vezes não resistem.
Incêndios de grandes proporções, como os que devastaram o Pantanal em 2020 e novamente em 2024, deixam muitos animais feridos, deslocados e frequentemente filhotes órfãos, incapazes de sobreviver sozinhos. Sem o cuidado da mãe, que o ensina a procurar alimento e outros comportamentos importantes, esses pequenos tamanduás não têm chance na natureza.
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É aqui que entra o Projeto Órfãos do Fogo.
Uma segunda chance: o trabalho do Instituto Tamanduá
Criado em 2021 pelo Instituto Tamanduá em resposta aos incêndios de 2020, o projeto Órfãos do Fogo atua na reabilitação e reintrodução de filhotes de tamanduá-bandeira que perderam suas mães para o fogo ou para atropelamentos.
Com sede na Pousada Aguapé, em Aquidauana (MS), o projeto oferece acompanhamento veterinário especializado, alimentação adequada e um longo processo de preparação para que esses animais possam retomar a vida selvagem com segurança. O trabalho não é simples: filhotes precisam ser alimentados a cada poucas horas, aprender a forragear, desenvolver suas habilidades naturais de cavar e caçar formigas, e, crucialmente, perder o medo do ambiente natural que um dia foi seu lar.
Histórias de sucesso
Atualmente, o projeto já devolveu à natureza diversos animais monitorados por colares com GPS:
- Cecília e Darlan, soltos em 2023 após anos de cuidados. Cecília recentemente foi avistada com um filhote nas costas, provando o sucesso da reabilitação
- Manduvi, Aroeira e Tarumã — todos batizados em homenagem à flora pantaneira, que também retornaram à natureza após superar traumas e ferimentos
Cada animal é monitorado por até dois anos após a soltura, permitindo que as equipes avaliem o sucesso da reabilitação e contribuam com pesquisas científicas sobre o comportamento da espécie em vida livre.
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O apoio da Proteção Animal Mundial
A Proteção Animal Mundial apoia o Projeto Órfãos do Fogo porque acredita que ações concretas de resgate, reabilitação e reintrodução são fundamentais para enfrentar os impactos das queimadas no Pantanal e proteger a vida silvestre.
Nosso apoio financeiro e técnico ajuda a ampliar a capacidade de atendimento do Instituto Tamanduá, garantindo que mais filhotes órfãos recebam cuidados veterinários, alimentação adequada e um processo de recuperação que os prepara para voltar à natureza em segurança. Além disso, contribuímos para a compra de equipamentos de monitoramento, como colares GPS, que permitem acompanhar os animais após a soltura e coletar dados essenciais para a conservação da espécie.
Nossa atuação vai além do resgate emergencial
Desde 2020, trabalhamos em conjunto com organizações como o Onçafari, Instituto Homem Pantaneiro e GRETAP.
Também atuamos na prevenção:
- Capacitação de brigadistas em resgate de fauna
- Treinamento técnico para atendimento veterinário em emergências
- Melhorias nas condições de reabilitação de animais silvestres
- Transformação dos sistemas que colocam essas vidas em risco
Saiba mais: Capacitação para equipes em queimadas
Proteger o tamanduá-bandeira é proteger o equilíbrio da natureza
O tamanduá-bandeira não é apenas um animal carismático: ele tem um papel muito importante na natureza. Ao cavar o solo para se alimentar de formigas e cupins, ajuda a mexer a terra, facilitando a entrada de ar e a circulação de nutrientes, o que contribui para solos mais saudáveis. Além disso, controla a quantidade desses insetos no ambiente e faz parte da cadeia alimentar, servindo de alimento para grandes predadores, como a onça-pintada.
Quando o tamanduá-bandeira desaparece, o ecossistema inteiro sente o impacto.
Situação crítica:
- ✗ Já desapareceu de 4 estados brasileiros
- ✗ Possivelmente extinto no Pampa
- ✗ Quase extinto na Caatinga e Mata Atlântica
- ✗ População reduzida em 30% nos últimos 10 anos
- ✗ Classificado como vulnerável à extinção pela IUCN
Se não agirmos rápido, corremos o risco de perder essa espécie para sempre.
Por que as queimadas acontecem?
É importante entender que 99% dos incêndios no Brasil são de origem humana. Cerca de 98% dos incêndios florestais no Pantanal em 2020 foram causados por atividades humanas, seja acidental ou criminosa.
A agropecuária tem vínculos historicamente documentados com o fenômeno na região, desde a década de 1970. No Brasil, o agronegócio é responsável por 74% das emissões de gases do efeito estufa e 97% da área desmatada é convertida para plantio de soja e pastagem.
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O que podemos fazer?
A boa notícia é que há esperança e ela se materializa em cada filhote resgatado, em cada tamanduá reabilitado que volta à natureza, em cada motorista que reduz a velocidade ao avistar um animal na estrada.
Soluções necessárias:
- Passagens de fauna nas rodovias mais críticas
- Fiscalização rigorosa contra desmatamento e queimadas ilegais
- Educação ambiental para motoristas, fazendeiros e comunidades locais
- Apoio a projetos de conservação como o Órfãos do Fogo
Como você pode ajudar:
Apoie a Proteção Animal Mundial
Contribua com nossos projetos de conservação e combate aos impactos da agropecuária industrial
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Exija de governantes medidas efetivas de proteção à fauna e de combate ao desmatamento. Estamos trabalhando pela aprovação do PL 466/15, que prevê ações para garantir a circulação segura de animais silvestres em rodovias e ferrovias.
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Saiba como denunciar caso encontre animais em situação de risco clicando aqui.
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Conclusão
Quando você vê um tamanduá-bandeira atravessando uma rodovia, não está vendo apenas um animal fora do lugar. Está vendo o sintoma de um ecossistema em colapso. Está vendo a consequência de décadas de desmatamento, queimadas e expansão sem limites.
Mas também está vendo resiliência. Está vendo uma espécie que se recusa a desistir. Que continua buscando alimento, cuidando de seus filhotes, tentando sobreviver em um mundo cada vez mais hostil.
E quando apoiamos projetos como o Órfãos do Fogo, estamos dando a esses animais uma segunda chance. Estamos dizendo que suas vidas importam. Que a natureza importa. Que ainda há tempo de consertar os erros do passado.
Todo tamanduá que aparece nas estradas é um alerta. Todo filhote resgatado é um recomeço. E todo final feliz é uma vitória compartilhada.
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