imagem de um agricultor rural colhendo café na plantação

Da produção ao prato: entenda a importância da segurança alimentar

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A segurança alimentar no Brasil apresenta grandes disparidades regionais, refletindo as desigualdades econômicas e sociais do país.

A segurança alimentar é fundamental para garantir que todos os indivíduos tenham acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidades suficientes e de forma constante, sem comprometer outras necessidades essenciais.

Em comemoração ao Dia da Segurança Alimentar, celebrado em 7 de junho, este artigo aborda a importância dessa questão, os desafios enfrentados e as diferenças entre segurança alimentar e segurança dos alimentos.

Tipos e exemplos de insegurança alimentar

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em seu projeto Voices of the Hungry/2013, desenvolveu a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES) que mede o acesso das pessoas ou das famílias aos alimentos e categoriza em três níveis:

  • Insegurança alimentar leve: caracteriza-se pela incerteza sobre a capacidade de conseguir alimentos. As famílias começam a se preocupar com a possibilidade de não ter recursos suficientes para comprar alimentos no futuro.
  • Insegurança alimentar moderada: a qualidade e a variedade dos alimentos consumidos estão comprometidas. As pessoas reduzem drasticamente a quantidade de alimentos ingeridos e, em alguns casos, pulam refeições inteiras.
  • Insegurança alimentar grave: refere-se à situação em que não são consumidos alimentos durante um dia inteiro ou mais. Nesta fase, as pessoas passam fome e podem ficar vários dias sem acesso a qualquer tipo de alimento.

Situação atual da segurança alimentar no Brasil

De acordo com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 72,4% dos domicílios brasileiros estavam em situação de segurança alimentar em 2023.

Isso representa um aumento de 9,1 pontos percentuais em relação à pesquisa de 2017-2018, que apontava 63,3%. No entanto, 21,6 milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para obter alimentos, evidenciando que há muito a ser feito para alcançar a segurança alimentar plena.

A forma mais grave de insegurança alimentar, que afeta cerca de 3,2 milhões de domicílios (4,1%), é mais prevalente em áreas rurais. Esse cenário reflete as desigualdades regionais e a necessidade de políticas públicas focadas nas áreas mais vulneráveis.

Dados e análises regionais

A segurança alimentar no Brasil apresenta grandes disparidades regionais, refletindo as desigualdades econômicas e sociais do país.

Norte e Nordeste

As regiões Norte e Nordeste do Brasil enfrentam os maiores desafios em termos de segurança alimentar. Essas regiões são caracterizadas por uma economia predominantemente agrária, com muitas famílias dependendo da agricultura de subsistência.

  • No Norte, 16% dos domicílios enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave. No Nordeste, esse índice é de 14,8%;
  • Cerca de 37,4% das crianças até quatro anos vivem em lares com algum grau de insegurança alimentar;
  • A precariedade alimentar em fases críticas de desenvolvimento pode levar a deficiências nutricionais que afetam o crescimento e a saúde a longo prazo.

Essas regiões são caracterizadas por uma economia predominantemente agrária, com muitas famílias dependendo da agricultura de subsistência. A falta de acesso a tecnologias modernas e a dependência das condições climáticas tornam essas populações particularmente vulneráveis a períodos de seca e outras adversidades ambientais.

Sul e Sudeste

As regiões Sul e Sudeste apresentam uma situação de segurança alimentar relativamente melhor, com índices mais elevados de estabilidade e acesso a alimentos de qualidade.  Esses dados refletem um desenvolvimento econômico mais robusto e melhores infraestruturas.

  • Mais de 70% dos domicílios nessas regiões estão em situação de segurança alimentar;
  • A presença de programas sociais como o Bolsa Família e iniciativas locais de distribuição de alimentos ajudam a manter os índices de segurança alimentar elevados.

O desenvolvimento econômico mais acentuado nessas áreas proporciona melhores oportunidades de emprego e renda, além de uma rede de distribuição de alimentos mais eficiente. A presença de grandes centros urbanos também facilita o acesso a serviços e programas sociais que contribuem para a segurança alimentar.

Desafios atuais da segurança alimentar

A segurança alimentar global enfrenta uma série de desafios complexos e interconectados que ameaçam o acesso a alimentos nutritivos e suficientes para milhões de pessoas.

Impacto da pandemia de COVID-19

A pandemia de COVID-19 trouxe desafios sem precedentes para a segurança alimentar global. O fechamento de fronteiras, a interrupção das cadeias de suprimento e as restrições de movimento afetaram drasticamente a produção, distribuição e acesso a alimentos. Além disso, a perda de empregos e rendas reduziu o poder de compra de muitas famílias, aumentando a insegurança alimentar.

Crescimento populacional e pressão sobre recursos

A previsão de que a população global atinja aproximadamente 10 bilhões de habitantes até 2050 coloca uma pressão adicional sobre os sistemas alimentares. A demanda por alimentos deverá crescer cerca de 60% em relação aos níveis atuais, conforme estimativas da FAO.

Este aumento requer a expansão da produção agrícola, que por sua vez depende de recursos limitados como terra e água. A competição por esses recursos pode intensificar os conflitos e exacerbar a insegurança alimentar em regiões vulneráveis.

Mudanças climáticas

As mudanças climáticas representam uma ameaça significativa à segurança alimentar.  Eventos climáticos extremos, como secas, inundações e tempestades, estão se tornando mais frequentes e intensos, destruindo colheitas, reduzindo a produtividade agrícola e afetando a disponibilidade de alimentos.

Segundo o relatório "Mudança climática e crueldade animal", que analisa o ciclo de vida do carbono, os impactos ambientais atribuídos à produção em larga escala de carne de suínos e frangos para o consumo humano em quatro dos maiores focos de produção do mundo - Brasil, China, Europa (usando dados da Holanda) e Estados Unidos. 

Os resultados demonstram que a expansão agropecuária contínua coloca em risco o cumprimento das metas do Acordo Climático de Paris e um futuro seguro para o clima.

Para se ter uma ideia, a análise conclui que as emissões de carbono para produzir carne de frango nesses quatro focos são equivalentes a manter 29 milhões de carros na estrada por um ano.

Degradação ambiental e escassez de recursos

A degradação dos solos, a escassez de água e a poluição ambiental são desafios críticos para a segurança alimentar. Práticas agrícolas insustentáveis levam à erosão do solo, à perda de fertilidade e à contaminação dos recursos hídricos.

A escassez de água, exacerbada pela poluição e pelo uso excessivo, limita a irrigação e a produção agrícola. A necessidade de adotar práticas agrícolas mais sustentáveis e eficientes é urgente para preservar os recursos naturais e garantir a produção de alimentos a longo prazo.

Desigualdades econômicas e acesso a alimentos

As desigualdades econômicas e sociais são fatores-chave que contribuem para a insegurança alimentar. Em muitas partes do mundo, o acesso a alimentos é desigual, com populações vulneráveis enfrentando barreiras significativas para adquirir alimentos nutritivos.

Crises econômicas, como recessões e inflação, podem aumentar os preços dos alimentos, tornando-os inacessíveis para os mais pobres. A falta de infraestrutura adequada para armazenamento e distribuição de alimentos também agrava o problema, especialmente em áreas rurais e remotas.

Problemas de governança e políticas públicas

A governança inadequada e as políticas públicas ineficazes são obstáculos importantes para a segurança alimentar. A corrupção, a má gestão dos recursos e a falta de investimento em infraestrutura e tecnologia agrícola comprometem a capacidade dos países de garantir alimentos suficientes para suas populações.

Políticas agrícolas mal formuladas podem levar a desperdícios e ineficiências, enquanto a falta de apoio a pequenos agricultores limita a produção local e a resiliência dos sistemas alimentares.

Diferença entre segurança dos alimentos e segurança alimentar

Os dois conceitos são frequentemente mencionados em discussões sobre saúde pública e políticas sociais, mas abordam aspectos distintos do acesso e qualidade dos alimentos. Entenda a diferença!

Segurança dos alimentos

A segurança dos alimentos refere-se ao conjunto de práticas e medidas destinadas a garantir que os alimentos consumidos sejam seguros para a saúde, livres de contaminação e patógenos que possam causar doenças.

Por exemplo, uma fábrica de processamento de carne adota rigorosos procedimentos de controle de qualidade para garantir que seus produtos não contenham patógenos perigosos. Isso inclui a manutenção de temperaturas adequadas durante o armazenamento e transporte, além de testes regulares de contaminação bacteriana.

Segurança alimentar

A segurança alimentar, por outro lado, é um conceito mais amplo que envolve a garantia de que todas as pessoas tenham acesso físico, social e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos para atender às suas necessidades alimentares e preferências para uma vida ativa e saudável.

Por exemplo uma comunidade rural, onde o governo implementa um programa de apoio agrícola que fornece sementes de qualidade e treinamento para agricultores. Além disso, estabelece mercados locais onde os agricultores podem vender seus produtos a preços justos, garantindo que a comunidade tenha acesso a alimentos frescos e nutritivos.

Conclusão

Embora o Brasil tenha avançado significativamente desde 2017, ainda há desafios importantes a serem superados, especialmente nas regiões Norte e Nordeste e entre as populações mais vulneráveis, como crianças e idosos.

Investimentos contínuos em programas sociais e políticas públicas são essenciais para melhorar a segurança alimentar e garantir que todos tenham acesso a alimentos de qualidade.

Em um contexto global de crescente demanda por alimentos, estratégias inovadoras e sustentáveis são cruciais para enfrentar os desafios futuros e assegurar a segurança alimentar para todos.

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