Zogue-zogue-do-mato-grosso: o primata mais ameaçado que quase ninguém conhece

Zogue-zogue-do-mato-grosso: o primata que o Brasil mal conhece e que já está quase extinto

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Descoberto em 2019 e já entre os 25 primatas mais ameaçados do mundo, o zogue-zogue-do-mato-grosso é um dos animais mais fascinantes e vulneráveis do Brasil. Conheça sua história, seus comportamentos únicos e o que está sendo feito para protegê-lo.

Você consegue nomear dez animais brasileiros ameaçados de extinção? A maioria das pessoas lembra da onça-pintada, da arara-azul, do mico-leão-dourado. Talvez do boto-cor-de-rosa. Mas existe um primata que vive numa faixa de floresta menor do que o estado de Sergipe, que foi descoberto pela ciência há menos de dez anos e que já entrou para a lista dos 25 mais ameaçados do planeta.

Ele se chama zogue-zogue-do-mato-grosso. E a história dele é uma das mais urgentes da fauna brasileira.

Quem é o zogue-zogue-do-mato-grosso?


O nome científico é Plecturocebus grovesi. O nome popular vem do som que ele faz: um chamado suave, quase musical, que os grupos usam para se comunicar entre as copas das árvores. Zogue. Zogue. Um som que, para quem já teve a sorte de ouvir na floresta, é difícil de esquecer.

Fisicamente, ele é pequeno: pesa menos de 1 kg, tem pelos alaranjados no rosto, como se fosse uma barba ruiva, máscara facial escura e olhos grandes que concentram uma expressividade surpreendente num rosto minúsculo. Sua cauda preênsil funciona como um quinto membro, que o auxilia a saltar e ficar nas copas das árvores. Ele não desce ao chão se puder evitar.

Mas o que mais surpreende nos estudos sobre o zogue-zogue-do-mato-grosso não é sua aparência. É seu comportamento.

Monogâmico para a vida toda!

O zogue-zogue-do-mato-grosso é um dos poucos primatas com comportamento monogâmico documentado como padrão. Os casais duram a vida inteira e vivem em grupos familiares pequenos, com pai, mãe e filhotes.

E mais: estudos com espécies do mesmo gênero mostram que o macho frequentemente carrega os filhotes por mais tempo do que a própria fêmea, especialmente nas primeiras semanas de vida. A paternidade ativa não é exceção aqui. É norma documentada.

Dispersor de sementes: ele não só habita a floresta, ele a reconstrói

O zogue-zogue-do-mato-grosso é frugívoro, se alimenta principalmente de frutas. E enquanto se move pela floresta e come ao mesmo tempo, derruba sementes em locais distantes das plantas-mãe, contribuindo para que novas sementes brotem e regenerem a vegetação. Sem o primata, certas espécies de plantas perdem um de seus principais mecanismos de dispersão.

Isso significa que o desaparecimento do zogue-zogue-do-mato-grosso não afeta apenas a espécie em si. Afeta a estrutura do ecossistema do qual ele faz parte. A floresta que ele habita depende, em parte, dele para se renovar.

Descoberto em 2019. Na lista dos mais ameaçados em 2022.

O Plecturocebus grovesi foi formalmente descrito pela ciência em 2019, resultado do trabalho de 20 pesquisadores que identificaram características genéticas e morfológicas que o distinguiam de outras espécies do gênero. Era uma descoberta importante: um primata endêmico, exclusivo do Brasil, que até então passava despercebido.

Três anos depois, em 2022, durante o Congresso Brasileiro de Primatologia realizado em Sinop, no Mato Grosso, o zogue-zogue-do-mato-grosso foi incluído na lista Primates in Peril, produzida pela organização Re:wild em parceria com a IUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza. A lista reúne os 25 primatas mais ameaçados do planeta.

O Brasil tem cerca de 140 espécies e subespécies de primatas conhecidas, a maior diversidade do mundo. Aproximadamente 40% delas estão sob algum grau de ameaça de extinção. O zogue-zogue está entre as mais críticas.

Três anos: da descoberta científica ao topo da lista de espécies à beira do abismo.

Por que ele está desaparecendo?

O território do zogue-zogue-do-mato-grosso é delimitado pelos rios Juruena, Arinos e Teles Pires, no norte do Mato Grosso. Uma geografia que o isolou ao longo de milênios e permitiu que evoluísse de forma única. Esse mesmo isolamento hoje funciona como uma armadilha: ele não consegue ultrapassar esses limites naturais. E dentro deles, a floresta está encolhendo em velocidade assustadora.

Pesquisadores estimam que 42% do habitat original já foi destruído. Sem mudanças concretas no ritmo atual de desmatamento, essa taxa pode chegar a 86% nos próximos 24 anos.

Mas há um detalhe que agrava o cenário e que raramente aparece nas manchetes: não basta que a floresta exista. Ela precisa estar conectada. Fragmentos pequenos e isolados não sustentam populações viáveis a longo prazo. Sem intercâmbio genético entre grupos, a espécie enfraquece ao longo das gerações.

Em alguns fragmentos hoje, grupos de apenas quatro animais vivem completamente ilhados entre lavouras e o lago formado por uma usina hidrelétrica. A barragem criou uma barreira de água de cerca de 300 metros que os primatas simplesmente não conseguem atravessar.

O que a Proteção Animal Mundial está fazendo

A Proteção Animal Mundial trabalha na proteção de animais silvestres e seus habitats a partir de uma perspectiva sistêmica: não basta proteger o animal individualmente se o sistema que destrói seu lar continua funcionando.

No caso do zogue-zogue, isso significa atuar em duas frentes ao mesmo tempo. A primeira é a comunicação e a mobilização: trazer essa espécie para o conhecimento público, porque animais que não têm nome na memória das pessoas desaparecem sem que ninguém exija sua proteção. A segunda é pressionar os sistemas que produzem o desmatamento, incluindo o modelo de produção de proteína animal industrial que é um dos principais motores da expansão agrícola sobre florestas.

O lar do zogue-zogue-do-mato-grosso não está sendo destruído por acidente. Está sendo destruído por um modelo econômico que trata a floresta como obstáculo e não como patrimônio. E enquanto esse modelo não mudar, o próximo zogue-zogue já está em risco antes mesmo de ser descoberto.

O que você pode fazer

Conhecer é o primeiro passo. Compartilhar é o segundo. E questionar é o terceiro. Questionar o que está no seu prato, as políticas que enfraquecem a proteção de florestas e o silêncio em torno de espécies que desaparecem sem que ninguém perceba. O zogue-zogue-do-mato-grosso não tem porta-voz. Mas agora você sabe quem ele é.

E isso já é um começo.

Para compartilhar:

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Fontes: IUCN Red List (Plecturocebus grovesi), Re:wild — Primates in Peril 2022-2023, ICMBio — Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, Sociedade Brasileira de Primatologia, Portal Amazônia, ((o))eco.

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A imagem utilizada neste conteúdo pertence ao banco de imagens da Proteção Animal Mundial

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