Bicho Livre, Terra Viva: um novo olhar sobre os animais e o futuro da nossa alimentação
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Por Felipe Paludetto
Filme reúne agricultores familiares, pesquisadores e especialistas para mostrar que criar animais com bem-estar e respeito à natureza já é uma realidade em diferentes regiões do Brasil.
O canto de um galo anuncia o início do dia antes mesmo de qualquer despertador tocar. No quintal, galinhas ciscam livremente e porcos reviram a lama, expressando comportamentos essenciais para o seu bem-estar. Essas cenas, que deveriam ser consideradas comuns, se contrapõem cada vez mais com um sistema alimentar marcado pela produção intensiva, no qual os animais têm cada vez menos espaço para expressar seus comportamentos naturais.
É justamente esse contraponto que Bicho Livre, Terra Viva, novo documentário da Proteção Animal Mundial, convida o público a enxergar. Em um momento em que as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e o avanço do desmatamento tornam urgente repensar a forma como produzimos alimentos, o filme mostra que já existem experiências capazes de conciliar a produção, a criação de animais, a conservação da natureza e o fortalecimento da agricultura familiar.
O documentário percorre seis cidades em três estados brasileiros: Canaã, Piumhi, Rio Pomba e Goianá, em Minas Gerais; Paranacity, no Paraná; e Paranaíta, no Mato Grosso. Ao longo das gravações, a equipe da Proteção Animal Mundial conversou com agricultores familiares, pesquisadores e especialistas que mostram como práticas agroecológicas podem, e devem, integrar a produção de alimentos, a criação e o cuidado com os animais e o respeito aos ciclos da natureza.
Em vez de considerá-los apenas como parte do sistema produtivo, o documentário defende que os animais devem ser reconhecidos como seres sencientes e ocupar um lugar central nas discussões sobre o futuro da nossa alimentação e da crise climática global.
"Quando pensamos em agroecologia, normalmente o debate se concentra na produção vegetal. O documentário amplia essa perspectiva ao abordar a criação de animais em sistemas agroecológicos e reconhecer que seu bem-estar e as condições em que vivem são fundamentais para a construção de modelos mais justos, resilientes e sustentáveis, conectados aos ciclos da natureza”, explica Marina Lacorte, gerente da campanha de Sistemas Alimentares da Proteção Animal Mundial.
“Trata-se de repensar o lugar que os animais ocupam nos sistemas alimentares e de transformar as formas de criação e sua relação com os territórios onde elas se desenvolvem", conclui Marina.
Saiba mais sobre o documentário
Repensar a alimentação também é enfrentar a crise climática
O lançamento acontece em um momento em que as evidências científicas reforçam cada vez mais a necessidade de uma transição justa dos sistemas alimentares, já que cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa está associado aos sistemas alimentares, da produção à distribuição e ao consumo.
A urgência dessa transformação é destacada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e reforçada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que identifica os sistemas alimentares, a agricultura e o uso da terra como áreas estratégicas para limitar o aquecimento global e fortalecer a resiliência dos ecossistemas, garantindo segurança alimentar e nutricional às populações.
Esse debate se torna ainda mais importante no Brasil, onde o avanço da pecuária e da produção de soja está ligado ao desmatamento de biomas fundamentais como a Amazônia e o Cerrado. Além de contribuir significativamente para as emissões de gases de efeito estufa do país, a derrubada da vegetação nativa compromete os processos que ajudam a regular as chuvas e o clima.
Estudos mostram que o desmatamento na Amazônia já está reduzindo as chuvas em diferentes regiões e contribuindo para secas mais severas, afetando as condições que sustentam a própria agricultura brasileira. Nesse cenário, o aumento de eventos extremos evidencia a fragilidade de um sistema alimentar fortemente ancorado na agropecuária industrial e cada vez mais exposto aos impactos das mudanças climáticas.
O bem-estar animal e as soluções que já existem no campo
A agroecologia se apresenta como uma alternativa capaz de integrar diferentes camadas de um mesmo desafio. Na criação animal, ao contrário dos sistemas de pecuária intensivos, ela reconhece que os animais são seres sencientes e propõe formas de manejo que respeitam seus comportamentos naturais, contribuindo para seu bem-estar, para a conservação da biodiversidade, a saúde do solo e o equilíbrio dos ecossistemas.
Para Tânia Vieira Leite, agricultora e presidente da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi), o modelo mostra, na prática, que respeitar os comportamentos naturais dos animais fortalece a relação entre produção, bem-estar animal e equilíbrio ambiental.
“Quando respeitamos a natureza de cada espécie, tudo fica mais equilibrado. Os animais conseguem expressar seus comportamentos naturais, vivem com menos estresse e isso se reflete em todo o sistema de produção. O bem-estar animal é parte da harmonia entre quem produz, os animais e o ambiente”, diz Tânia.
As histórias e experiências documentadas no filme mostram que essa abordagem reforça a viabilidade da transformação dos sistemas alimentares de criação animal, que já está em prática em diferentes regiões do país. Além disso, evidência que ampliar esse modelo é possível e requer políticas públicas, assistência técnica, pesquisa, acesso a crédito e valorização dos produtores que lideram essa mudança.