As eleições de 2026 também colocam a causa animal em debate. Após avanços recentes em políticas públicas de proteção animal, o próximo governo será decisivo para manter ou interromper esse ciclo de conquistas.
O cenário eleitoral de 2026 tem contornos próprios para quem acompanha a agenda de proteção animal. Com Jair Bolsonaro inelegível até 2030 por decisão do TSE, a disputa mais provável no primeiro turno coloca frente a frente o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), herdeiro político do bolsonarismo.
As pesquisas de abril e maio mostram Lula à frente em todos os institutos testados nesse cenário: 40% a 34% no Real Time Big Data (5/mai), 46,6% a 39,7% no Atlas/Bloomberg (abr) e 38,3% a 36,1% — margem de empate técnico — na Futura/Apex (mai). Um recorte relevante para a causa: o eleitorado feminino tende a Lula; o masculino, a Flávio. Historicamente, mulheres têm maior engajamento com pautas de bem-estar animal — dado que merece atenção de qualquer organização que monitore a correlação entre política e proteção animal.
O que cada candidato representa para a agenda animal?
O governo Lula construiu, nos últimos três anos, o portfólio mais robusto de políticas públicas de proteção animal da história recente do país. Em 2023, criou o Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais no MMA, inédito no Brasil. Em 2024, sancionou a Lei 15.046, que institui o RG Animal.
Em 2025, lançou o ProPatinhas e o SinPatinhas, programas nacionais de manejo e identificação de cães e gatos. Em 2026, sancionou a Lei AMAR, o decreto "Justiça por Orelha", que eleva multas por maus-tratos a até R$ 1 milhão, e criou a Conferência Nacional de Direitos Animais. A trajetória é de comprometimento consistente, com entregas documentadas.
Os outros candidatos, por sua vez, têm atuação legislativa ainda restrita na pauta animal. Após o Caso Orelha, o cão comunitário torturado em Santa Catarina que comoveu o país em janeiro, vários candidatos assumiram posição pública de indignação e apoiaram projetos de ampliação dos canais de denúncia de maus-tratos. É um sinal de atenção à causa, mas ainda sem histórico de propostas estruturantes. Os programas de governo divulgados até agora concentram-se em economia, segurança e pauta identitária; proteção animal não figura entre suas bandeiras centrais.
Vale lembrar que o governo anterior sancionou em 2019 a lei que regulamentou e reconheceu a vaquejada e rodeio como patrimônio cultural imaterial, práticas que organizações de proteção animal contestam por envolver sofrimento animal documentado.
A eleição de 2026 não é, evidentemente, decidida pela pauta animal. Mas para quem atua no campo, a pergunta é legítima: qual governo dará continuidade ao ciclo de políticas que vem sendo construído, e qual representa um retrocesso ou uma descontinuidade?