Proteção Animal Mundial lança relatório sobre o papel dos animais na recuperação florestal
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Apesar do papel essencial dos animais, projetos de restauração no Brasil ainda ignoram a fauna na regeneração das florestas.
Quando pensamos em restauração florestal, é comum imaginar o plantio de árvores e a recuperação de áreas degradadas. Mas uma floresta saudável depende de muito mais do que vegetação crescendo. Ela depende de todo um ecossistema de vida acontecendo no local.
Aves, morcegos, antas, macacos, insetos e inúmeros outros animais exercem funções fundamentais para que uma floresta consiga se regenerar e se manter equilibrada ao longo do tempo. São eles que dispersam sementes, polinizam plantas, controlam pragas, movimentam nutrientes pelo solo e ajudam a sustentar as cadeias ecológicas que mantêm esses ambientes vivos.
Para se ter uma ideia, uma anta pode caminhar quilômetros pela floresta transportando sementes no corpo e nas fezes. Ao longo do caminho, ela espalha espécies nativas, favorece a regeneração natural da vegetação e ajuda árvores a crescerem longe da planta-mãe. Sem esse deslocamento, muitas sementes cairiam próximas à árvore de origem, reduzindo suas chances de germinação e desenvolvimento.

Pode não parecer muito bonito, mas o coco da anta ajuda a floresta a nascer de novo. Ao espalhar sementes pelas matas, esse grande mamífero contribui diretamente para a regerneração natural da vegetação. Lais-Lautenschlager.
Mesmo com diversas comprovações científicas, a fauna continua praticamente invisível na maioria dos projetos de restauração ambiental no Brasil. É o que mostra o relatório “Incorporação de Fauna em Projetos de Restauração Florestal nos Biomas Brasileiros”, lançado pela Proteção Animal Mundial. O estudo analisou 17 programas e editais públicos e privados de restauração florestal entre 2024 e 2025, que juntos movimentam mais de R$ 685 milhões.
A conclusão chama atenção porque nenhum dos programas avaliados estabelece critérios obrigatórios relacionados à fauna e falham em apresentar indicadores específicos para monitoramento de animais. Ao mesmo tempo, praticamente todos os projetos analisados concentram seus esforços em indicadores de cobertura vegetal e métricas de carbono.
Segundo o estudo, isso revela uma lacuna importante na forma como a restauração dos ecossistemas vem sendo conduzida no país, e como os animais continuam sendo vistos e tratados nas políticas de recuperação de áreas degradadas.
“Plantar árvores não basta para ‘restaurar’ efetivamente uma floresta. Sem animais, processos ecológicos essenciais, como a polinização, a dispersão de sementes e a fertilização do solo, deixam de ocorrer de forma natural. Por isso, a presença de fauna é fundamental para uma restauração florestal completa e deve ser considerada em qualquer projeto que busque sucesso a longo prazo”, explica a Dra. Laís Lautenschlager, autora do estudo.
Mas por que os animais são tão importantes para a recuperação das florestas?
Nas florestas tropicais, entre 80% e 90% das sementes que chegam ao solo são dispersadas por animais frugívoros, como aves, morcegos e mamíferos. Na prática, isso significa que boa parte das árvores depende diretamente da fauna para se espalhar e regenerar áreas da floresta.
Enquanto aves e morcegos ajudam a distribuir sementes em áreas abertas e aceleram a regeneração natural, grandes mamíferos, como antas e queixadas, dispersam sementes maiores, fundamentais para a estrutura e a diversidade das florestas conservadas.
Outros grupos também exercem papéis importantes, os insetos e morcegos por exemplo, polinizam plantas enquanto predadores ajudam a controlar populações de outras espécies. Os herbívoros influenciam a dinâmica da vegetação e diferentes animais contribuem para a ciclagem de nutrientes e para a fertilidade do solo.
Uma floresta viva possui um ciclo natural, onde todo o reino animal e vegetal funcionam juntos, desempenhando um papel fundamental. Ao ignorar essas interações ecológicas, compromete-se a capacidade de regeneração das áreas restauradas.
O que é defaunação e qual o seu impacto?
A defaunação é o processo caracterizado pela perda, diminuição ou desaparecimento de animais nos ecossistemas, mesmo quando essas áreas aparecem, aparentemente, preservadas. Essa ausência pode alterar profundamente o funcionamento das florestas, causando diversos impactos.
Os dados mostram que as florestas defaunadas armazenam entre 30% e 40% menos carbono. Tal como a Mata Atlântica, que já perdeu mais de 80% de área verde e, ao menos, quatro espécies-chave de vertebrados. Não é difícil calcular o impacto que essa redução tem na intensificação de eventos climáticos extremos, cada vez mais comuns em todo o mundo.
O relatório também mostra que o Brasil, conhecido como a maior biodiversidade do mundo, já teve uma redução de cerca de 70% dos mamíferos de médio e grande porte nos últimos 500 anos.
Por fim, a publicação destaca que projetos que incorporam monitoramento de fauna e funcionalidade ecológica apresentam regeneração natural até 40% mais rápida, se comparada a projetos que excluem os animais do ciclo de recuperação.
“Hoje, nenhuma lei ou diretriz governamental estabelece critérios faunísticos obrigatórios para projetos de restauração. Esse relatório abre a oportunidade para incluirmos os animais nas políticas e programas nacionais que tratam de restauração, como o Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), para serem colocados em prática em editais públicos e privados”, afirma Rodrigo Gerhardt, Gerente de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial.
Por uma restauração florestal mais completa e cheia de vida
O estudo propõe caminhos para incorporar a fauna como parte central dos projetos de restauração ecológica e recomenda a inclusão de indicadores específicos para monitoramento de animais, além de diretrizes práticas adaptadas a diferentes contextos e escalas de recuperação ambiental.
“Incorporar fauna em projetos de restauração não deve ser tratado como uma ação complementar, mas como uma condição essencial para garantir florestas mais resilientes, biodiversas e capazes de se manter ao longo do tempo, protegendo a vida de milhares de espécies, inclusive a nossa, que também depende da floresta para sobreviver”, finaliza Júlia Trevisan, Coordenadora de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial.