Porcos são animais emocionalmente complexos, não apenas uma fonte de comida

Publicado em 18 de abril de 2018 por

Blog da Equipe

A linguagem corporal desses animais nos diz muito sobre o seu aspecto emocional e revela a intensidade do seu sofrimento nos sistemas industriais intensivos

Este artigo foi escrito por Sarah Ison, nossa Assessora Global de Animais de Fazenda

Como especialista em comportamento e bem-estar animal, com mais de uma década de experiência, perdi as contas de quantas vezes testemunhei cenas perturbadoras de sofrimento dos porcos.

Doenças, ferimentos e dor são comuns nos sistemas industriais intensivos, onde porcos ficam confinados em ambientes apertados, inóspitos, escuros e em condições miseráveis.

Leitões sofrem mutilações dolorosas, incluindo ter seus dentes e caudas cortados. Esses procedimentos desnecessários são usados para manter os porcos em condições com pouco bem-estar.

O nível de crueldade com esses animais é quase inimaginável. Mais de 1.4 bilhão de porcos foram abatidos ao redor do mundo para produção de carne em 2016. Estimativas indicam que esse número subirá para 1.6 bilhão até 2026, em comparação com apenas meio bilhão 50 anos atrás.

Isso indica que, enquanto a população do mundo duplicou, a demanda por carne suína triplicou.

Porcas mães em uma baia de gestação coletiva

Mais do que uma "fonte de proteína"

Impulsionado pela necessidade de combater a crueldade nos sistemas intensivos de produção, um novo campo científico surgiu há 50 anos – conhecido como “etologia aplicada”.

Antes da etologia aplicada, os pesquisadores de comportamento animal não estudavam as capacidades emocionais dos animais, como sua capacidade de sentir felicidade, alegria, tristeza e dor. Mas os sistemas industriais intensivos fizeram os cientistas desenvolver novas abordagens para estudar a vida emocional dos animais de fazenda e para desafiar (moralmente) as práticas cruéis que eles são forçados a suportar a vida inteira.

Quanto mais eu aprendo sobre os porcos, mais frustrada me sinto com a falta de avanços na implementação de boas práticas de bem-estar, comprovadas pela mesma ciência com a qual venho contribuindo ao longo da última década.

Fiquei chocada ao ouvir recentemente, numa fazenda, pessoas se referindo aos porcos como uma “fonte de proteínas” enquanto eles ainda estavam vivos, respirando. Foi quando me dei conta de que isso é parte do problema. Os porcos não deveriam ser entendidos como uma máquina biológica que produz proteínas, mas como os seres inteligentes, sociais, gentis e dotados de sentimentos complexos que são.

O que os animais querem

Uma pioneira da etologia aplicada, Marion Dawkins, definiu duas características essenciais para entender o conceito de bem-estar animal:

  • O animal está saudável?
  • O animal tem o que ele quer?

Dawkins explica que o mais importante para responder a essas perguntas é analisar o comportamento do animal. Da mesma forma que nós, humanos, temos dificuldade em esconder o que estamos sentindo, o comportamento dos animais também revela os seus sentimentos.

Lendo a linguagem corporal dos porcos

Outra pioneira, Francoise Wemelsfelder, criou uma forma simples de avaliar o bem-estar fazendo a leitura da linguagem corporal dos animais. O seu sistema classifica os animais com diversos termos relativos à expressão e emoção, como “brincalhão”, “inquisitivo” ou “agitado”, e em uma escala de “nem um pouco contente” até “totalmente contente”.

Esse é um método poderoso, pois usa a linguagem corporal dos próprios animais para interpretar o que eles sentem, e, ao mesmo tempo, evita que as pessoas projetem os seus próprios sentimentos nos animais.

Uma prova de que o sistema criado por Wemelsfelder funciona é que tanto criadores de porcos e veterinários, quanto ativistas em prol dos animais, todos entraram em acordo sobre a pontuação da linguagem corporal dos porcos – mesmo com diferentes experiências e visões ideológicas sobre os porcos.

Porca presa em gaiola individual durante a gravidez

Porcos têm sentimentos

Se todos tivessem a mesma oportunidade de observar os porcos, como eu tenho feito, talvez parassem de pensar nesses animais como meras máquinas biológicas e começassem a vê-los como seres vivos. Indivíduos que têm a sua própria personalidade e sentimentos, que podem ser brincalhões, felizes e até mesmo se sentir frustrados ou entediados.

Compartilhar essa percepção sobre os porcos pode resultar em uma vida melhor para eles do que simplesmente “sobreviver” em sistemas industriais intensivos.

Repensar a pecuária suína com base na ciência do bem-estar animal ajudará a compreender e atender às necessidades básicas dos porcos, sejam elas físicas, comportamentais ou emocionais.

Mude bilhões de vidas no Brasil

Juntos, nós podemos acabar com o sofrimento desnecessário dos porcos nos sistemas industriais intensivos.

Faça sua parte agora e peça aos supermercados que assumam um compromisso público de fornecer apenas carne suína com altos padrões de bem-estar animal:

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